Escritos na varanda

Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Adeus Porto (parte II)


Do outro lado da ponte, que é uma passagem, está a outra margem. Ou será uma miragem?
Por baixo corre o Rio Douro, de águas cinzentas da cor do céu, cujas nuvens, indiferentes a quem passa, se transformam em água que engrossa o caudal do rio. É época das chuvas, estamos em Novembro.
Por cima, como que a tentar colorir a paisagem, um arco-íris deslavado pelo sol enfraquecido do fim da tarde, indica a localização de um pote cheio de moedas de ouro para lá de onde a vista alcança.
Pelas minhas contas assim de cabeça, o arco-íris terminava para os lados de Contumil. Foi para aí que me dirigi.
Nada. Nem uma única moeda, quanto mais um pote de ouro. Ainda tive que pagar para procurar o fim do arco-íris.
Ao fim de nove anos na terra de Ramalho Ortigão, de novo uma ponte e outra margem pela frente. A ponte até pode ser a mesma, mas a margem é mesmo outra, e desta vez não é uma miragem.
A carteira continua tão cinzenta como a cor do céu à chegada. O pensamento, fruto das lições da vida, roubou as cores do arco-íris. E não tenciona devolvê-las.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Adeus Porto (parte I)



Não ficas eternamente na memória porque a eternidade não existe.
Ficas enquanto eu tiver memória.
Enquanto me lembrar das coisas boas que quero recordar e das más que não consigo esquecer.

Até à próxima.

Ah, sim! Porque vai haver próxima.
Não te vês livre de mim assim tão facilmente.
Eu hei-de voltar.
Não é uma promessa, é uma ameaça.

sábado, 16 de outubro de 2010

Julgamentos

Tanto tempo perdido em julgamentos
Sobre o bem e o mal da nossa vida.
Coisas em que gastamos os momentos
Da vida que devia ser vivida.
E por fim que fazer aos pensamentos
Que sobram dessa razão esquecida?
Não valem mais que mera opinião
De quem trocou razão por emoção.

A criança

A criança não tem culpa, de ter esta mãe que tem
A criança não tem culpa, do passado, que não vem
A criança não tem culpa, de esperar, só, por ninguém
A criança não tem culpa, do vazio que a entretém.

A criança não tem culpa, de estar aqui e agora
A criança não tem culpa, de ver o mundo lá fora
A criança não tem culpa, que o relógio vá embora
A criança não tem culpa, de esperar sem ver a hora.

A criança não tem culpa, e depois o que é que interessa?
Mesmo sem culpa a criança, a alegria está bem expressa
Embora por ser criança, isso às vezes desapareça
Quando se faz da criança, um adulto bem depressa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Atletismo em Peniche

Neste tempo a varanda não servia para escrever, era mais para colocar as sapatilhas a secar.

Peniche, 198?, eu e o camarada António Preto

domingo, 19 de setembro de 2010

Soneto de todas as putas

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
...Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Bocage

sábado, 18 de setembro de 2010

A pena, a morte e a pena de morte

A pena

“Numa mão sempre a espada e noutra a pena”
Luís de Camões, Os Lusíadas, canto VII


A pena esteve desde sempre associada à morte.
A mão que segura a pena que escreve é a mesma que empunha a espada que mata.
Temos pena de quem morre, porém inventámos a pena de morte.
Depenar uma galinha implica matá-la primeiro.
Vários usos para as penas poderiam ser referidos, como por exemplo a almofada de penas, todos eles no entanto implicam a prévia morte dos seus anteriores e legítimos proprietários, as aves.

“O pavão de hoje é o espanador de amanhã”
(autor desconhecido)

A morte

“A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim”
José Afonso, A morte saiu à rua

Estar morto não é o contrário de estar vivo, como foi alarvemente dito um dia.
Estar morto é uma consequência e uma continuação de se ter estado vivo.
Há mortos que continuam vivos nos nossos pensamentos.
Só morre quem viveu.
Não existe vida eterna, logo quem vive tem de morrer.
Morrer custa muito, sobretudo para quem está (continua) vivo.
Há quem não goste de morrer e prefira continuar vivo. Feitios.
A morte é um negócio. A natural, para os cangalheiros. A não natural sobretudo para o maior fabricante mundial de armas.

A pena de morte

Quando a pena se junta à morte, temos pena mas cria-se a pena de morte.
A pena de morte existe por todo o lado, é um facto.
Há pessoas condenadas a morrer porque tiveram o azar de estar à hora errada no local errado, o caminho da bala disparada por um qualquer assassino assaltante.
Há pessoas condenadas a morrer porque tiveram o azar de estar à hora errada no local errado, o caminho de um carro guiado por um qualquer condutor irresponsável e assassino.
Houve pessoas condenadas a morrer porque tiveram o azar de ter nascido em países possuidores de bens como ouro, canela e marfim, bens esses cobiçados pelos poderosos assassinos de então.
Há pessoas condenadas a morrer porque tiveram o azar de nascer em países possuidores de petróleo, pretendido pelos poderosos assassinos actuais.
Há pessoas condenadas a morrer de fome porque alimentá-las sai muito caro. Há dinheiro suficiente para isso, como porém é impossível (ao dinheiro) estar em dois sítios ao mesmo tempo, quem nos (se) governa prefere com ele alimentar contas na Suíça e em offshores do que alimentar pobres famintos.
Houve pessoas condenadas a morrer pela justiça divina, aplicada por seres humanos. Os maus, quando morrem, têm à sua espera do outro lado o caldeirão e o tridente do diabo, por isso não deveria ser preciso fazer nada, mas, não vá o diabo tecê-las e isto da religião ser tudo uma treta, é conveniente aqui deste lado dar uma ajudazinha. O que só prova que nem os próprios apregoadores das tais verdades acreditam naquilo que apregoam.
Há pessoas condenadas a morrer pela justiça do direito penal. Até têm direito a um padre nos últimos instantes de vida. Não é bem justiça divina mas anda lá perto, é quase como se fosse.
O homem, enquanto foi um animal irracional semelhante aos macacos a partir dos quais evoluiu, matava para comer. Depois, com a evolução descobriu a existência de valores e passou então a matar para se alimentar a si e aos seus valores.

Na vida e na morte, como em tudo o resto, há desigualdades. Está tudo mal distribuído.
Dependendo do ponto de vista, isto pode ser uma causa ou uma consequência de todos os males e problemas que existem pelo mundo fora.
E era tão fácil resolver estes problemas. Bastava que a morte estivesse mais bem distribuída.
Não é preciso andar por aí a matar mais gente, bastava que houvesse uma melhor distribuição. Há tanta gente boa que morre. Se fosse possível salvá-los e se começassem a morrer mais dos outros...