Escritos na varanda

Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

É Terça-Feira




É Terça Feira
(Sérgio Godinho)

"É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada

E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz

É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada

E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria

E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz

É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz"


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Feira de ilusões


Feira de ilusões *

As pedras gastas e os sonhos também,
A ingreme calçada e o Sol a pique
Só uma côdea, o almoço não vem,
Na torre o relógio toca a repique.

Velhas no aspecto, as roupas usadas
Olham-nos do chão em cima de um pano,
Só mudam de mão com notas contadas,
Mais q’uma vez pra não haver engano.

A estranja nem vê, só quer souvenir,
Um velho olha, sem poder comprar:
A pouca reforma teve pr’ onde ir.

E a velha senhora ali a esperar,
Algum comprador que esteja pra vir
Salvar-lhe o dia antes de acabar.

* Há quem lhe chame “da Ladra"