Escritos na varanda

Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A caminhada II


23H43. Eis que chego finalmente à minha realidade virtual. Depois de ter chegado a casa às dez e meia, de ter jantado e de ter feito a minha meia hora diária de caminhada. 
Quem não devem estar nada satisfeitos devem ser os accionistas da sociedade filarmónica.
- O quê? Este gajo ainda fica com 17 minutos do dia para ele próprio? Deve ter saído mais cedo hoje.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Amarras


- Amarras?
- Amarro.
E amarrou. Assim que o costado encostou ao cais saltou para fora, puxou da corda e enrolou-a com mestria ao cunho mais próximo, segurando a embarcação. Todos pudemos então sair em segurança.

Estava terminada a parte mais fácil da viagem. A mais difícil vinha a seguir: entenderem-se numa terra estranha, cheia de preconceitos em relação a diferenças culturais.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O crepúsculo


A luz do crepúsculo ilumina apenas vagamente o caminho.
É preciso parar, fazer uma pausa antes de avançar. Pelo seguro.
Demore o tempo que demorar, outra luz virá.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A escada de acesso


Não se sabia bem aonde conduziam aqueles degraus. Uma lenda muito antiga dizia que quem fosse por aquela escada acima havia de subir na vida.
A rir estarão certamente os duendes que habitam esta floresta e que habitualmente se escondem por trás das folhas e dos troncos. A rir dos incautos, que fiados na lenda, sobem sabe-se lá com que esforço a escada, pensando que chegados ao cimo terão subido na vida.
Bem, e não é que subiram mesmo?
Mas… e para que? O que ganharam com isso?
Eles nada, mas ganhámos nós, pois ficámos a saber que aquela escada conduz a um novo patamar da ganância.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Uma produção fictícia


A Sociedade Filarmónica “Amigos do Centro Cultural” leva a cabo a exibição da peça “O vivo que teimava em estar vivo”.
“Levar a cabo” é a expressão que melhor define o evento. Em primeiro lugar porque o dito vivo é levado à presença de um cabo da Guarda; em segundo lugar porque a apresentação acontece ao cabo de várias tentativas falhadas e frustradas, promessas, ilusões e desilusões, sonhos de glória no palco da vida e curto circuitos nas luzes da ribalta.
A peça é baseada na história verídica de um porteiro de uma sociedade filarmónica, que, ao contrário de abrir portas, tinha como missão fazer palhaçadas, providenciando para que nada faltasse ao entretenimento dos sócios da referida sociedade, até que a morte o separasse do seu posto de trabalho; para se manter vivo a si próprio e à sua sanidade mental, resolve fugir, utilizando para esse efeito como esconderijo da fuga um caixão que por ali estava, vazio, sem morto dentro.
A representação terá lugar na garagem da referida sociedade, e dada a exiguidade do espaço aconselha-se marcação prévia, ou em alternativa devem os presentes levar assento de casa, pois não se efectuam descontos a quem assistir de pé.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Andar à roda


Andar à roda.
Andar a roda.
Andar na roda.
Andar à roda dela.
Andar a roda da sorte.
Andar na roda da vida.
E no fim não ter nem a terminação.
Nem sequer a aproximação.

Rodar em vão.
Num vão de escada.
Numa soleira de porta.
Num peitoril de janela.
Numa janela aberta ao mundo.
Num mundo que roda sem parar.
Até à porta do fim do mundo.
Até que a escada deixe de ter degraus.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Conserto de Ano Novo


Uma torradeira a carvão é uma esturradeira.
Nestes casos não faz falta nenhuma um conserto de ano novo, o que faz falta é uma torradeira nova.