Escritos na varanda
Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.
domingo, 8 de novembro de 2015
A mudança
O caracol transporta consigo o que é indispensável à sua existência.
O humano transporta consigo, e com todos os outros humanos dos quais se rodeia nestas circunstâncias, o que é supérfluo para a sua degenerescência.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
O palhaço triste
O palhaço andava triste. As coisas até
teriam graça se não fossem tão tristes. Tudo tinha a sua piada, mas ninguém lhe
achava graça.
O palhaço ria-se de tudo, até de si
próprio, sobretudo de si próprio. Mas era constantemente acusado de estar
sempre a brincar, de não levar as coisas a sério. Como se a vida fosse para
levar a sério.
Um dia alguém o acusou até de se sentir
ofendido. E era com uma brincadeira, imaginem se fosse a sério. Como se não
houvesse já coisas bastantes a separá-los, agora até uma simples brincadeira os
afastava mais.
Não era isso que queria. Por isso resolveu
que daí em diante iria ficar calado. Assim não ofenderia ninguém.
Continuaria a ser palhaço, porque isso não
se deixa nunca, a única diferença é que passaria a ser o palhaço silencioso.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Pedra sobre pedra
Não sei exactamente de onde veio. Apareceu, ficou por algum tempo e depois desapareceu. Mesmo que quisesse não saberia onde procurá-la. Porque a verdade é que não quero. Não serviria de nada. Partiu de livre vontade, deixá-la ir. Fica a obra.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
A outra margem de lá
Iguais em tudo menos nas diferenças com que foram baptizadas.
Diferenças essas que são inexistentes, mas o povo é crente e obediente.
Acredita quando lhe dizem que na outra margem é outro país.
Obedece quando o mandam conquistar a outra margem.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
A outra margem de cá
A passagem para a outra margem é um
conceito metafísico. Não são precisas pontes, nem rios, nem sequer margens.
Dotados de livre-arbítrio, um eufemismo para
a tão necessária desobediência, cada um pode ser o que não é.
domingo, 1 de novembro de 2015
É preciso ter calma
A luta era desigual, como geralmente todas
as lutas são. Dois braços contra muitos, uns seis ou oito, não deixava muita
margem de manobra.
- CALMA, CALMA!
- TEM CALMA!
- CALMA, NÃO TE DESGRACES!
Gritavam de todo o lado os donos dos muitos
braços. Quando o cansaço se apoderou dos dois braços, os seis ou oito braços ganharam.
É assim a cobardia.
Parece que é preciso ter calma. Quando nos
fazem algo geralmente não está presente nenhum “amigo” para o impedir, os “amigos”
só aparecem para nos impedir de ripostar, para nos agarrarem e nos dizerem para
ter calma.
Sim, é preciso ter calma. Até porque há
mais marés que marinheiros.
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