Escritos na varanda

Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A janela

                                                 Alcoutim, 30 Julho 2010

Da janela vejo o rio
E o que está para lá dele.
Vejo um barco e sorrio,
Imagino que vou nele.

O vento que dá na vela
Empurra-me até ao mar.
Navego, que vida bela,
Já não quero mais voltar.

Vou p’ra longe do passado
Em busca de um futuro.
No presente, o nosso fado
Destrói-nos, não o aturo!

Há mais terras neste mundo
Que têm menos ladrões.
Só quero encontrar, no fundo
Descanso p’rós meus serões.

Adeus ó minha janela
Vou para outra cidade.
E tudo por causa dela
A puta da austeridade.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os cinco minutos que mudaram o mundo


Querida, estás pronta?
Só mais cinco minutos, ´mor.

17H45 Vê aí no jornal que filmes estão no shopping, apetecia-me ir ao cinema.
17H50 Sabes, afinal acho que prefiro ficar em casa, começa hoje uma série nova.

07H17 Aquece também uma caneca de café para mim.
07H22 O que me apetecia mesmo era chá.

10H04 Vens ao café? Vou, deixa-me só acabar este mail.
10H09 Olha, vai sozinha, estou à espera de uma chamada.

13H31 Depois do almoço podias ir comigo àquela loja de roupa.
13H36 Ah, olha, vamos amanhã, afinal agora não me apetece.

11H09 Agora não posso sair, quero por a roupa a lavar.
11H14 Sempre vais sair? Então anda que eu preciso de ir ao supermercado.

19H13 Agora não, não vês que estão ali os meus pais?
19H18 Dá-me um beijo, eles não estão a olhar.

12H40 Queres ir ao cinema amanhã?
12H45 E se fossemos antes a casa dos teus primos?

15H32 Está tão bom tempo, anda passear a pé.
15H37 Vamos voltar para trás, já estou cansada.

18H56 Querido leva-me ao centro comercial. Sim, eu sei que as tintas não podem ficar assim abertas e é chato teres de limpar os pincéis, mas é que preciso mesmo da blusa para amanhã sem falta.
19H01 Querido, deixa estar porque liguei à minha prima e ela tem uma do mesmo tom e empresta-me.

19H44 Querido vou só lá abaixo comprar tabaco.
19H49 É dos bombeiros? Ai, venham depressa por favor, o meu marido está pendurado na casa de banho; saí de casa há cinco minutos para comprar cigarros e ele estava bem…
Não sei porque fez isto…


terça-feira, 5 de novembro de 2013

O passado

                                              Lisboa, algures numa rua, 26 Setembro 2013

Estava aqui a pensar que talvez não tenha sido bem assim. Não é que a memória me atraiçoe, não é a memória que me atraiçoa, o que acontece é que se desfocarmos um pouco o futuro, vemos com mais clareza o passado.

O passado precisa ser compreendido, é como se fosse uma lição.

Ah, então foi isso, naquele espaço de tempo, enquanto eu ia por aquele lado, na outra margem o trânsito estava muito congestionado...

Depois disso podemos então virar os olhos para a frente novamente e usar o que aprendemos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A sombra

                                                           Sintra, Praia Grande, 5 Julho 2013

Há quem não goste do Reino das Sombras. Eu também não gosto, sou anti-monárquico.
O que está mal no Reino das Sombras é o reino, não são as sombras.
Prefiro sombras que não prestam vassalagem.
O que seria da fotografia sem sombras.
O que seria da vida sem sombras.

domingo, 3 de novembro de 2013

A Fábrica de Mentiras

Ao toque da sirene
a Fábrica de Mentiras preparou-se para iniciar um novo dia de trabalho.
Espreguiçou-se, levantou-se, encaminhou-se para a casa de banho, lavou-se.
De volta ao quarto abriu a boca e os produtos começaram a sair da linha de montagem.

sábado, 2 de novembro de 2013

The Day After

                                               Viseu, 5 Setembro 2006

- Tens a certeza disso? Perguntou com a habitual voz calma e meiga.
- Sim, eu sei bem o que ela me fez, respondi.
Parou o que estava a fazer, aproximou-se e colocou o seu nariz a um palmo de distância do meu. A voz tinha um tom firme e tinha perdido a meiguice.
- Viste alguma coisa?
- Não, mas….
- Então se não viste nada, não sabes nada!
Ao dizer isto o seu nariz tinha-se aproximado mais ainda e estava quase colado ao meu. Não sei se era da proximidade, mas pareceu-me que gritava.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

De mochila às costas

                                               Mem Martins, 1 Novembro 2013

Pus a mochila às costas e dirigi-me para a saída.
Afinal não passava de uma entrada, numa vida nova.