Escritos na varanda
Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.
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sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Atravessando o Tejo
A questão central nem era atravessar a ponte, era andar num comboio de dois andares. Cada vez que via um, lá vinha a madame chatear-me a cabeça.
Então desta vez, aproveitando que já tinha o dia estragado, lá fui.
A fisioterapia estrada-me os dias, corta-os a meio, não faço nada nem antes nem depois.
No regresso do tratamento, depois de almoçar tardiamente e com a tarde já quase a meio, em vez de apanhar o comboio para Sintra, meti-me no comboio da ponte.
A viagem não foi muito longa, fui só até ao Pragal. Não convinha demorar muito porque queria voltar a tempo de apanhar o comboio de Sintra antes da hora de ponta.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
O trilho
Um trilho de areia onde os pés se enterram e a marcha se retarda. Como se fossem os restos fossilizados do Trans-Alentejano, uma linha imaginária que nunca existiu e onde nunca circularam comboios.
terça-feira, 1 de março de 2016
A minha linha
Além da Linha do Tua existe também a linha da minha.
A linha da minha vontade de viajar nela. Não sei de onde vem nem para onde vai, mas parece-me interessante.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Em linha
A
minha atracção por ela provoca uma onda gravitacional que deforma o meu espaço
tempo.
Deforma
o meu espaço de diálogo porque tento ligar-lhe e ela não me atende.
Deforma
o meu tempo porque o comboio está atrasado e vou chegar tarde ao encontro.
sábado, 26 de dezembro de 2015
Infinitamente sem destino
A carruagem da vida está vazia por enquanto. Em breve vai encher e seguir viagem.
Quem entra? Quem sai? Quem se senta ao lado? Quem segue até ao fim?
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Estação terminal
Pela linha vai a vontade de ir. Nas colunas do cais encosta-se o desejo de ficar. Entre um e outro avançam os ponteiros do relógio, muda a cor dos semáforos, aceleram-se os passos de quem entra e sai, ouvem-se avisos sonoros, apita o comboio.
Abre o sinal, fecham-se portas. Abrem-se bocas de quem fala ao telemóvel, fecham-se olhos de quem tenta dormir.
A viagem é curta mas não há distância para a vontade de partir.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
A Primavera e outras estações de comboio
Curvei-me para a frente e prendi melhor os
atacadores dos sapatos, que estavam soltos. Assim não corria o risco de
tropeçar quando saísse dali. Voltei a endireitar-me lentamente até sentir de
novo as costas apoiadas no banco onde estava sentado. Com os olhos percorri
todo o espaço envolvente, à procura de algo que prendesse a minha atenção.
Nada. Os atacadores tinham sido o último pormenor digno de nota. Tudo o resto
já estava mais que visto, há tanto tempo que me encontrava aqui.
Voltei a cabeça e encarei-a. Os olhos
denotavam o cansaço de quem está farto de esperar. Tudo o resto era imobilidade
absoluta, excepção feita aos cabelos que esvoaçavam quando uma brisa mais forte
os agitava.
Por momentos pareceu-me que ia abrir a boca
e dizer algo mas, pura ilusão, nem um só músculo se mexeu. É verdade que eu
também tenho estado calado, mas por fora, por dentro e para dentro tenho
conversado bastante, o suficiente para me manter desperto.
Olhei-a mais uma vez e interroguei-me se
ela também falaria sozinha, para dentro. É daquelas coisas que devem parecer
óbvias a toda a gente, é claro que todos falamos sozinhos, mas no caso dela,
talvez por preconceito, tive dúvidas.
A raiz do meu pensamento foi cortada pelo
aviso da chegada do comboio, através da instalação sonora. Tive vontade de me
levantar de um salto mas não o fiz pois poderia parecer que estava impaciente
pela chegada do comboio. Não estava. Estava impaciente sim mas por ali estar.
Não queria estar ali, mas os outros comboios da vida, os urbanos e suburbanos,
deixaram-me na plataforma dos de longo curso. E sem bilhete. Eu não ia
embarcar.
Não era eu que ia embarcar. Era ela.
terça-feira, 21 de abril de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Apita o comboio
Era domingo, era verão, era meio dia.
Àquela hora, com aquele calor todo, ninguém estava a trabalhar nos campos em
redor. Reinava pois o silêncio, apenas interrompido pelo chilrear dos pássaros,
que para esses não havia meio dia.
Na gare da estação apenas um passageiro,
que se mantinha também ele em silêncio. Não tinha com quem falar, é certo, mas
mesmo que houvesse mais alguém é provável que se mantivesse calado. Os
pensamentos prendiam-lhe a atenção. Fazia planos. Tentava imaginar como seria
quando estivesse longe dali.
Não é que houvesse muitas coisas para planear,
porque quando se dispôs a partir, preparou as coisas com calma e sem
sobressaltos, no fundo quilo era uma mudança e não uma fuga.
Os pensamentos que agora tinha eram uma
forma de manter o cérebro ocupado para não pensar nela e na possibilidade de a
encontrar. Havia muito poucos comboios naquela terra e quis o destino que
partisse no comboio em que ela ia regressar. O comboio ao domingo tinha apenas
duas carruagens, pelo que havia cinquenta por cento de probabilidades de a
enfrentar cara a cara quando o comboio parasse.
Oficialmente não sabia que ela ia regressar
porque ela não lho disse, soube-o por intermédio de outras pessoas. Era suposto
que, caso a visse, mostrasse surpresa, mas sabia que se isso acontecesse não ia
conseguir fingir.
Vindo do nada, ouviu-se à distância um
apito do comboio. Lentamente levantou-se, pegou na mala, a única que tinha e
sem olhar para trás aproximou-se da beira da estação. Uma ideia veio-lhe nesse momento à cabeça: se alguma vez lhe
perguntassem de onde vinha, em vez de dizer “Casal do Monte”, que era o nome
correcto, diria “Casal do Monte das Desilusões”.
Era mais apropriado.
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