Escritos na varanda

Imagino-me a escrever na varanda, ao fim da tarde, com o Sol a por-se no horizonte e uma bebida gelada ao lado. Como eu nem sequer tenho varanda, tudo isto é ilusão.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Do esquecimento


Lembro de ti o que não quero esquecer. Por vezes paro e pergunto-me porquê, porque é que eu não quero esquecer se não há nada para lembrar.
O vazio, o grande nada, foi o meio onde nos movimentámos. Tu seguindo o teu caminho, eu seguindo a minha ilusão. Por breves instantes cruzá-mo-nos. Tu continuaste o teu caminho, eu fiz de ti a minha ilusão.
Não há nada para recordar, mas ainda assim não te quero esquecer. São as ilusões que me mantêm vivo. O que mata mesmo é a realidade.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Descanso


Nem sempre é possível, nem sempre se consegue, mas quando a oportunidade surge, podem tocar telefones e telemóveis, apitos de mensagens ou skypes, pode chover ou fazer sol, pode estar frio ou calor, não há nada que impeça o corpo, e sobretudo o espírito, de descansar.
O primeiro passo é tirar os sapatos, depois qualquer posição serve, seja na vertical ou horizontal.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Matteo Carcassi Andantino




Desde há cerca de três meses que o mundo parece virado ao contrário. O meu, pelo menos.

O princípio chegou depois do fim,
No meio não há ordem nem desordem,
As respostas não são não, nem são sim,
Os cães já não ladram, os gatos mordem,
Guerra e paz começam num motim,
Falam em castidade os que mais fodem.
Faz-se da vida um eterno faz de conta.
Somos tratados como sendo gente tonta.
(Isto um dia vai ter continuação, espero eu.
O poema quero eu dizer, não o mundo ao contrário, espero)

O tempo é como se não existisse. A rotina tem-se resumido a acordar, chatear-me, comer, dormir, para no dia seguinte voltar a acordar e seguir os mesmos procedimentos.
A guitarra, o meu maior interessa actual, tem estado arrumada a um canto. Entretanto mudei de “estúdio”. Espero que as coisas a partir de agora comecem a melhorar. A música e a vida.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A entrada


Embora um bocado receoso, transpus a entrada. O que ia encontrar era novo para mim.
Olhei em frente: degraus. Sabe-se lá onde conduziriam.
Olhei para trás: a sombra dela não me saia do pensamento.
Fechei os olhos, respirei fundo e dei o primeiro passo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A casa sem nome


Ali onde a luz do Sol não entrava e o ar há muito que perdera a frescura da brisa que descia da serra, habitava um homem sem nome.
As janelas só com muito boa vontade se podiam chamar janelas. O chão era um tapete de lixo onde em alguns sítios os pés se enterravam até ao tornozelo. As paredes eram apenas os suportes que impediam que o tecto desabasse. O tecto, esse, era apenas um rendilhado de tábuas carcomidas que deixavam passar as gotas de chuva e de onde pendiam ramos de hera, teias de aranha e morcegos.
Nada ali respondia pelo seu nome próprio. Era uma casa sem nomes.
Até o tempo se recusava a entrar desde que o relógio se transformara num mostrador ferrugento a que faltavam os ponteiros.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Sebastião o indesejado


As pernas cansadas levaram-no a sentar-se numa pedra. Não era o sítio mais apropriado porque estava molhada devido à humidade no ar, mas não havia outro local e o cansaço era muito.
À falta de cajado, apoiou-se no tripé da máquina fotográfica. Inclinou-se para a frente e apoiou a testa nas costas das mãos. Fechou os olhos por uns instantes e viu o nevoeiro por dentro. Abriu-os e viu o nevoeiro por fora. Estava cercado. Apenas distinguia os vultos das árvores no meio do silêncio cinzento que o rodeava.
Ocorreu-lhe uma ideia: e se desaparecesse no nevoeiro? De certeza que ninguém daria pela sua falta.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Talvez nada


Talvez não haja nada para lá da escuridão da noite. Talvez não haja nada para lá da escuridão da vida. Talvez nem haja vida. Talvez...
Esta areia onde enterro os pés. Esta água que me gela os ossos. Este vento que me arrefece a cara. E no entanto...
No entanto nada.
Esta vontade de sair voando. Esta vontade de correr saltando. Esta vontade de dizer gritando. Esta vontade talvez não seja nada.